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acreditar

Pra quem olha de fora, parece que tá tudo errado, mas calma.

Temos que aprender que pode ser certo sim, mas da maneira que a gente acredita.

Que tenhamos força pra defender o nosso bem, até a última gota do nosso suor. Abrir o peito com orgulho, pois nossa força que construiu nosso castelo, também nos dá coragem pra defender ele de todo mal. Colocaremos dentro do nosso reino quem torça pela nossa paz, quem cultive da melhor maneira as sementes por todos os espaços deixados vazios. Precisamos desistir de abandonar nossas crenças, por medos que nunca foram nossos. Canalizar nossa fé no peito de alguém que merece ser feliz também.

Não ser covarde com o mundo, mas aprender a semear a nossa coragem que vem de dentro.  Aprendemos a ser surdo, nem que seja pra poder peneirar o desejo alheio com as nossas vontades. O equilíbrio para entender que nem todo grito que vem de fora da nossa janela é incentivo, mas a malícia pra entender que nem todo gemido dessa vida precise ser de dor. Temos que ter forças nos punhos, pra aprender a não abrirmos mão. Dos nossos sonhos e do outro. Segurar firme e puxar pra perto. Desviar dos obstáculos ou curvar os aplausos, sem nunca desprendermos do nosso maior escudo.

Dessas coisas bonitas que a vida andou ensinando.

Aprendi que o amor só protege com a mesma força que você acredita nele.

Quando entendemos que a nossa felicidade pode ser refletida numa conquista que não é nossa. As fichas começam a cair naturalmente. Reparamos que nossos laços são maiores do que podemos controlar. Sentimentos uma corrente percorrer nosso corpo, por uma energia vinda exatamente da outra ponta das nossas mãos atadas. Apoiamos nossas armas e armaduras na mesma tábula.

Enfim, armados de flores e sorrisos.

Afogamos nossas hipocrisias em baldes de água fria, que podemos coletar com lágrimas. Criamos coragem para desabafar nossos medos, caminhamos nus e pedimos colo alheio. Oramos para que por alguns minutos os relógios tirem folga, só pra podermos justificar com firmeza que o tempo parece parar quando estamos nos braços de quem gostamos. Mergulhamos de mãos dadas em um mundo novo, moldado por sorrisos servidos em pares. Piadas prontas, que só fazem sentido, quando completadas por outra voz.

Assumimos mudanças enquanto mudamos.

Carregamos nossos melhores pedaços para decorar o início de uma nova história. Arrastamos nossos erros e entregamos no mesmo pedido. Abraçamos a imperfeição com alegria e agradecemos por termos quem nos entende tão bem. Despedaçados e descrentes, juntando seus cacos com a mesma matéria prima.

Um amor

Da maneira que a gente acredita.

Um amor da nossa maneira.

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autor_jorge

 

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aquela música

Às vezes toca aquela música do Pearl Jam na rádio. No primeiro acorde eu mudo de estação,ou desligo, ou penso em algum método rápido e indolor de morrer.
Apenas uma coisa é inevitável nesta situação: pensar em nós, aquele dia no bar.
Essa música começou a tocar e você, sempre tão espontâneo, chegou de repente e enlaçou meu corpo por trás – nunca vou esquecer dos pelos dos meus braços eriçados por sentir tuas mãos na minha cintura – e disse bem no pé do meu ouvido direito:
– Dança comigo?
– Eu danço com você até que meus pés estejam tão gastos a ponto de não conseguir me manter de pé. – era o que eu gostaria de ter respondido, mas, “vamos sim”, foi o que eu disse.
Você pegou na minha mão esquerda e me girou 180° para a direita, coloquei as duas mãos no teu peito, minha testa tocava teu queixo, olhei para cima, me vi nos teus olhos.
Você cheirou meus cabelos e fechou os olhos.
– Que tipo de homem hoje em dia faz isso assim, sem medo de ser visto? – pensei.
Cheirou, fechou os olhos, e sorriu um sorriso bobo, sem dentes, desses que derretem os corações mais frios e gélidos.
Depois abriu os olhos e segurou meu rosto nas mãos, com cuidado e delicadeza. Olhou por alguns segundos e sorriu novamente, sorriu como se nada no mundo pudesse deixá-lo mais feliz do que estar ali comigo, exatamente ali.
E assim ele desarmou todas as minhas defesas, derrubou meus melhores soldados e invadiu o meu castelo sem deixar resquícios do portão que outrora havia ali.
Dançamos a noite inteira e, vez ou outra, entre gargalhadas e olhares, pedíamos para repetir a música, a nossa música, nossa valsa.

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autor_kamila

Kamila Drieli

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desentalei

Acordei um pouco mais assustado do que o normal.

Dessa vez a ressaca parecia vir do coração ao invés da cabeça.

Uma maneira curiosa de explicar todo o vazio deixado pelas palavras na noite passada. Quando a gente desabafa, colocamos pra fora sentimentos que guardamos por alguma razão. De algo ou de alguém. Algumas mudanças demoram mais do que outras. O que se aplica muito bem para móveis, não sentimentos. Mas por algum cômodo, ou incômodo, acostumamos muitíssimo bem com nossos móveis sentimentais.

Acomodar pode ser perigoso. Costuma ser uma confusão irônica entre conforto e tranquilidade, caminhando de mãos dadas por uma pista oval. Mas nem sempre mudar parece ser uma opção tangível. Muitas vezes longe da gente, pertinho da preguiça. Tem sempre uma desculpa esfarrapada que parece decorá-la muito bem.  A gente vai deixando virar rotina. Vai ouvindo piadas fantasiadas de carinho. Sai debochando da nossa sorte.

Mudanças são necessárias e vazios são preenchíveis. Mas é que tanta coisa depende da gente, que mesmo sabendo, estranhamos, principalmente quando se livra. Liberta mas sofre. Buscamos experiências novas desejando conservar memórias. Sonhamos em acordar no passado pra poder contar do futuro. É assustador enxergar o quanto é possível reclamar do futuro e do passado, só pra poder apelidar nossas cegueiras momentâneas.

Mas dos prazeres dessa vida, descobri que o mais bonito deles, é de como podemos nos reconstruir.

Então adoro acreditar que construímos nosso conhecimento com nossas melhores memórias, mas precisamos buscar algum sentindo dentro do peito. Tem palavra que só sai da boca da gente quando fica apertada no abraço. Bota um coração de frente pro outro, deixa que eles harmonizem as batidas e respira devagar. Curtir o agora e aproveitar pra juntar nossos cacos também. Abraçamos direito. E então aprendemos a abraçar. Pessoas e sentimentos.

Preenche o silêncio de paz, enxergamos uma luz no fim do túnel e vamos deixando essa chama crescer dentro da gente. Diante dos olhos, enxergue o trajeto que você vai viver da maneira mais leve possível. Busque novas respostas, mas entenda que nem sempre devemos fazer exatamente as mesmas perguntas. Evolua primeiro por si, para depois poder entender que ninguém muda pelos outros.

Pois antes de qualquer tipo de amor.

O respeito é universal.

Vida que segue.

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autor_jorge

 

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piscar de ano

Ela acordou mais do que o normal e sozinha,

Era por opção, por costume e por adorar essa sensação.

Acordou e já encheu o dia de sorrisos, compartilhou com o espelho só pra poder multiplicar o brilho do ambiente que já era todo dela.  Das preguiças da vida, ela deixava conversando com seu travesseiro macio. Isso significa que também deixava alguns nomes, que não tinha vergonha de sonhar, como nunca houve problemas em se esquecer.  Amava café e também adorava o perfume que ele aplicava pelo ambiente durante a manhã.

Tinha prometido que levaria poucas coisas na mala, mas não significa que teria organizado na noite anterior. Juntou o que mais gostava para o final de semana, pois a semana seria corrida, portanto não adianta tentar sabotar as vontades do futuro, teria de voltar pra casa. Tinha um hábito maravilhoso de sorrir enquanto conversava sozinha. Ou falava tão rápido ás vezes que talvez estivesse em dois tempos. No passado e no futuro. Mas indiscutivelmente a parte mais bonita era aquela em que ela gargalhava sozinha. Até confortava.

Por isso era tão estar perto dela. Era do tipo de pessoa que às vezes tá fazendo massagem na nossa alma, pelo simples fato de ficar com a cabeça encostada no nosso ombro. O tipo de pessoa que era bom ter dentro do abraço. Pelo maior tempo possível. A gente se apaixona naturalmente, fica meio embebedado, com toda aquela forma leve que ela tinha de levar a vida. Naturalmente vai tendo vontade de ter ficar assistindo só pra não atrapalhar. Fica tudo mais colorido.

Tinha traçado poucas coisas das quais tinha encarado naquele ano. Mas se portou muito bem perante todas elas. O que parecia que só a deixava mais forte. Ou mais bonita. O batom escuro que contrastava com a pele clara. Além de emoldurarem muito bem o sorriso. Encurtava os olhos enquanto bebia e flutuava muito bem sobre os assuntos, era o centro de atenção do triangulo que papeava. Pelos apertados abraços tinha deixado saudades quando passou.  Fantasiei.

Ela chorou timidamente com a sequência de explosões que harmonizavam dentro dela, fogos e champanhe. Atirava sorrisos envergonhados aos olhos que a cercava, não secou as lágrimas. Continuava linda. Conversou com a lua, pediu proteção e desculpas, aos outros e a si mesma. Mal abria os lábios. Quase que em forma de oração eu assisti o primeiro sorriso que ela deu pra si mesma naquele ano.  Não cobriu as feridas, daquele e de outros anos, mas nunca esteve tão preparada para aquele próximo. Era notável pela simples gratidão nos agradecimentos.

Cobriu os erros com aprendizagens, deu mais um gole e iniciou uma distribuição incontável de abraços momentâneos ou talvez eternos. Cantarolou enquanto brindava e desfilou pelos cantos daquela praia. Passo muito firme e bastante confiante. Talvez até mesmo pegando impulsos.

Pois não sei até agora se ela sumiu ou voou, num piscar de olhos. Um piscar de amores. Talvez por opção, por costume ou por adorar essa sensação.

Acompanhada pelo fato de saber que nunca esta sozinha.

Feliz Ano.

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autor_jorge

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do que você precisa?

Quantas páginas são necessárias para aliviar o nó de uma garganta inflamada por palavras caladas e engolidas?

Quantas vezes é necessário calar para se fazer ouvir num silêncio que, de tão denso, faz mais barulho do que tudo que não foi dito?
Como perceber o infinito num mundo que transborda no raso, no fácil, no conveniente?
Seria diferente se conseguíssemos enxergar antes do fim, antes da luz, antes do depois. Mas não foi, nem sempre é possível fazer como se pensa, pensar como se faz, agir em concordância. Às vezes não sabemos como dizer, como se todas as palavras que colecionamos desde a infância perdessem o significado. Como se todos os vocábulos se tornassem insensatos diante do que queremos que outros saibam.

O mais importante é você.
Você sabe? Se baste.
Você disse? Se contente.
Você quer? Busque.
Mas o roteiro nem sempre condiz com a vida real, quase sempre esquecemos o texto e improvisamos numa cena derradeira, contando com a possibilidade de que a sorte nos olhe com cuidado e nos ceda um espaço. Nós dê confiança, nos mostre um caminho menos árduo, mais sereno.
Serenidade vem de dentro, e o mundo grita por todos os lados.
Como é bom depois de um dia longo repousar num abraço sem culpa, sem medo, sem explicação. Bom mesmo é ter razão de ser, motivo de acontecer.
E se não tiver, bom mesmo é inventar, criar, recriar.
Mais difícil que trocar, é consertar.
Mais bonito que sentir, é demonstrar.
Mais infinito que o silêncio que grita deve ser a vontade de se fazer ouvir sem precisar dizer.
Bonito, bonito mesmo é escolher todo dia você.
Olha, o céu está lindo lá fora…
Ele sempre está, e sempre nos mostra que, independente das cores, das dores, dos amores, existe um novo recomeçar.
Poderia ser ontem, mas pode ser já.

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autor_kamila

 

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elas dentro dela

Acontece que no tal passado, ela era infernal.

Um verdadeiro furacão, que arrastava tudo ao seu redor.

Era tão intensa que parecia que nunca media as consequências dos seus atos. Os batons de cor escura contornavam seus lábios. Carregava seu sorriso com balas de sarcasmo e ousadia. E quando disparava beijos, sempre arrastava uma risada malvada. Gostosa de escutar até quando não se ouvia a piada. Trocava olhares calculados, o que era uma tremenda sorte do acaso, que nunca teve o azar de ser metralhado pela forma como ela costuma sorrir com os olhos.

Olhava nos olhos.
Das vítimas e dos amigos.

Algumas vezes franzia a testa e os olhos e encaravam a alma. Aprendeu com outros sustos da vida, que ninguém mente o que sente. Pessoas transparentes são raras, mas sempre deixam seus sentimentos escaparem. Já tinha na ponta da língua todo o vocabulário necessário quando o silêncio resolvia aparecer pra conversar.  Com as pontas dos dedos, rasgava devagar toda a culpa que insistia em pairar em alguém, sempre em forma de carinho. Sabia lidar com a culpa como ninguém. Como se fosse dela. Abraçava pra aquecer, mas sempre disposta a esquentar.

Deixava os corpos aquecerem o bastante para clamar pelo frio. Bailava sobre as cobertas numa mistura de menina e mulher. Perdidamente certa de que não sabe como tem tamanha certeza de querer estar ali. Enrolava suas saudades e pudores enquanto arrancavam suas roupas. Encaixavam com tamanha perfeição que pareciam ensaiar. De todas as voltas que a nossa cabeça insiste em dar, a melhor delas é quando estamos mergulhados no agora. Sentia que estava no lugar exato. Segura e suada. Ele só dela. Ela mais dela do que nunca. Gozava do poder que tinha e da mágica que transpirava da própria pele.

Adormecia

E numa mistura de preguiça e sonolência, abre os olhos desejando voltar para seu último sonho. Ela sonha toda noite, mas pouco se lembra com o que sonhou. Enrosca o rosto no travesseiro, como se buscasse o final do seu sono dentro dele. Estala seus dedos e deixa seu corpo agradecer por mais um dia. Ora por proteção e esquenta o café. Reclama do passado que não tirou a maquiagem e agora exige o esforço do futuro para remover. Discutia. Principalmente com ela mesma. Era trágico e ao mesmo tempo cômico. Prendia os cabelos de uma maneira firme, para que não tivesse que destinar seus xingamentos aos fios que caiam sobre seu rosto. Num tom de voz mais baixo, conversava com a sua própria consciência, tentando reprimir um passado recentemente infantil. Sorria da própria desgraça. Das próprias frustrações.

Sorria, pois ficava linda sorrindo, independente do tempo.

Físico ou verbal.

Sorria, pois encontrava a maioria das respostas nos momentos em que era leve.

No ballet das mulheres dentro dela, tomava conta da própria casa conversando com a amiga de infância, no mesmo tom de voz do dia que se conheceram. Dava risada da história que não lembrava se já tinha escutado, mas dava uma opinião diferente do que a última vez. Pelo menos disso tinha certeza. Evitava elencar suas dúvidas, por acreditar que não ter todas as respostas da vida talvez seja ter um pouco de paz. Costuma adorar discutir sozinha. Fazia com certa frequência e sentia até um prazer nisso.

O problema é quando alguém de fora palpita.

Ai é outra história.

Mulherão.

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autor_jorge

 

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vizinhos de alma

Foi justamente naquele dia, que ela resolveu sair sem maquiagem, perfume e brincos. Coisa rara pra uma segunda feira. Ou se atrasava para a reunião corporativa, ou juntava tudo e terminava a produção no carro. Ao pegar o elevador, com as mãos ocupadas e cabelo molhado, recebeu aquela ajuda salvadora para segurar a porta para ela entrar.

Mas só quando chegavam próximo à garagem, resolveu olhar nos olhos de quem lhe fez a gentileza.

– Ah, eu não posso me atrasar, desculpe o mau jeito, bom dia!

Ele, reparando em cada movimento daquela mulher fascinante e tão natural, como não via há muito tempo, respondeu com aquela voz aveludada, que ainda saía rouca por causa do travesseiro:

– Imagine, pra mim foi um prazer esta surpresa, bom dia!

– Surpresa?

Ela ia continuando a conversa enquanto os dois procuravam seus carros, já no subsolo.

– Sim, adoro quando não sinto fortes perfumes logo de manhã e esta suavidade sua veio acompanhada de uma imagem inspiradora pra começar minha semana.

Depois de um suspiro tímido, ela continuou:

– Nunca vi você por aqui, é morador novo?

– Não, já moro há mais de um ano. Incrível mesmo nunca ter visto você, mas agora sei que tenho uma vizinha e quem sabe uma amiga… Assim, marcaram um treino de final de tarde, na academia do condomínio.

Se despediram apressados para a tarde que passou devagar.

Ele já estava na sauna, quando ela chegou, por isso não o viu logo de cara e foi, como de costume, dar um mergulho na piscina. Enquanto dava algumas braçadas, o vizinho de voz aveludada, sai com o corpo quente de tanto vapor e dá um mergulho de cabeça, na pequena mas profunda piscina.

Os dois se encontraram na superfície ao mesmo tempo e se olharam, muito. A impressão que tiveram foi instantânea e recíproca, vontade de não sair mais de um demorado abraço que não aconteceu, pelo menos não ali.

Enquanto deixavam de lado os aparelhos e espelhos, sentaram-se na varanda do mezanino e admiravam o mar ao longe. Conversaram sobre tudo, por muitas horas seguidas, quando veio a fome e a sede.

Ainda molhados, subiram juntos  para o jantar combinado, só que agora, depois de conhecerem suas histórias, desejos e sonhos, já não dava mais para manter distância, se juntaram num delicado e ardente abraço, que durou até o vigésimo terceiro andar, onde era o apartamento dele, ela morava no andar que viria depois.

– Daqui a meia hora, ele perguntou quase afirmando e não querendo largá-la.

– Sim, ela consentiu com a cabeça.

Aquela seria a segunda feira mais sensacional que os dois já viveram, não fosse o dia seguinte e os próximos, que eles continuam vivendo.

Até hoje

Juntos.

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nossas malas

Existem despedidas dessa vida, que a gente não faz.

São tão rápidas e cruéis que mal podemos acompanhar seus movimentos.

Malditos ninjas do adeus.

Deixam um gostinho de até logo, mas custamos em acreditar. Fechamos a cara com um bico, a alma por proteção e soltamos um sorriso amarelado pra agradar. Um adeus mal dado. Não maldoso. Conversamos baixinho com o silêncio que alguém deixou. Suspiramos buscando palavras, mas não encontramos nem ar. Borrifamos os nossos carinhos ao vento, orando pra que sejam carregados até o lugar em que não podemos estar.

Adoramos negociar no escuro com o futuro, que covardemente ressuscita o passado só pra nos maltratar. Enchem nosso agora de saudades, pra ver se aprendemos como carregar. Saudade, nada mais é, do que a vida sendo sádica explicando pra gente que nem todos os nossos amores, a gente consegue levar pra passear. Parece que a nossa mala é sempre pequena pro tanto de coisa boa que a gente quer guardar. Por isso, recusamos a ajuda pra arrumar nossas malas. Esquecemos propositalmente nossos pedaços na esperança que alguém possa nos montar.

Prometemos a nós mesmos sermos melhores na próxima arrumação. Mais carinho na hora de arrumar a próxima mala, e assim, talvez caiba espaço para alguma lição. Apertamos o nome de alguém junto com um lugar legal. Embolando uma história fantástica e amassando uma risada gostosa, teremos espaço para dobrar nossos devaneios junto com nosso pouco juízo. Cuidado. Não aperta muito pra não quebrar nada, fecha essa tua mala de memórias e carrega com você por toda a vida.

Tem partida que machuca, pois a gente sabe que vai demorar pra abraçar outra vez. A gente conta pra quem não deve todas as coisas que a gente não pode. Só pra ver se quem nem foi, fica. A gente tem orgulho do sangue ser quente, mas tem vergonha de pedir pro outro ficar. Só aprendemos com muito barulho o tamanho da importância de um silêncio.

Rodamos o mundo buscando os caminhos que sempre estiveram dentro da gente. Tem muito adeus curto, confuso. A gente diz que tá chegando sem saber pra onde tá indo. Junta tudo o que falam da gente e vestimos uma máscara que nem é nossa. Amassa tudo e mastiga junto com o orgulho, antes de engolir. No começo sempre cansa. Com os conselhos sinceros fazemos nossos melhores escudos. Confiamos e continuamos andando. Andamos muito. Aprendemos mais um tanto.

Alguns medos desistem no meio do caminho, principalmente quando os encantos da vida tem espaço para trabalhar em paz.

Então antes de ir embora, por gentileza, deixe a maioria dos seus pedaços pra que alguém possa te remontar.

Te procurar.

Encontrar.

Inspirar.

E ficar.

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autor_jorge

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vamos brincar de que?

Pela estrada de terra ela vinha com suas botas de montaria.
Percebia extasiada os aromas e cores da paisagem que aquela antiga fazenda refletia. Aquelas terras foram recebidas em circunstâncias maravilhosamente estranhas.

Quando passeava, numas das várias vezes, pelo imenso e belo parque, próximo à sua casa, preocupada naquela tarde, com os rumos que sua vida haveria de tomar, após a grande revelação do marido, que iria se separar porque não a amava mais.

pensou; se os planos de vida a dois acabaram, preciso pensar no solo que farei daqui pra frente. Sei que sou forte o bastante para me lembrar de quem eu sou, sei que tudo que vivi até hoje foi verdade, sei que fui feliz até agora com ele e que também me descobrirei diferente e que esse diferente vai ser muito bom. Mas não sabia nem como, nem por onde começar.

Voltou pra casa, com os olhos marejados ainda, depois de tantos dias de confusão de sentimentos, abriu uma correspondência que seu porteiro entregou. O documento oficial, com timbre, carimbo e selos que dizia: Sra Clarisse Lisboa (nome de solteira) Com a autoridade a mim concedida pelo Sr Gilberto Stern, venho informar sobre seu falecimento e cumprir seu testamento. Cabe à senhora uma grande porcentagem de seus bens. Aguardamos sua presença em nosso escritório o mais breve possível, para os trâmites burocráticos da realização completa das determinações de nosso estimado cliente.

Não conseguia respirar direito, suas mãos suavam, passou um filme futurista em seus pensamentos. Um futuro que agora era real. Estava pisando em suas novas terras, deixada por um tio (por afinidade) distante, que não teve filhos ou esposa e que a amava muito enquanto era criança e passava férias na cidade do melhor amigo de seu pai. O que ela não sabia é que o maravilhoso presente não acabara ai.

À noite, frio, muito frio, céu estrelado, cheiro de frutas, som das folhas no vento suave e uma fogueira que ela começava a alimentar com os gravetos que encontrava naquela clareira, banhada pelo som do riacho e da mais redonda e linda lua que já tinha visto, escutou passos estalando as folhas.

Ficou assustada, mas não com medo, era uma presença boa e forte. O rosto dele lhe parecia familiar, sorriso amigável e olhar tranquilo disse sorrindo:

– Nem nos meus melhores sonhos, poderia imaginar que você fosse ficar tão linda.

– Você me conhece?

– Sim, desde pequena, aquela menina que corria muito pelos campos e montava cavalos como ninguém.

– Você é o Marcelinho?

Ria como quem entende uma piada engraçada.

– Que bom que lembra de mim e isso te fez rir assim.

– O que você faz aqui?

– Eu era o administrador da fazenda do Gilberto, essa que vemos do outro lado desse rio. Eu moro aqui.

– Como a vida brinca com a gente, é só deixar que ela te mostre, é só perceber o desenho que ela vai aos poucos construindo. Eu escolhi, num momento de dor, ficar desperta para o que viria pela frente. Entendi que quando a gente vive com verdade e com a transparência, nossas escolhas caminham a nosso favor, em nosso benefício.

Ainda que minha vida, ricamente programada não tenha sido o que eu planejei, ainda assim escolhi acreditar que existam planos que eu não alcanço, que existem encontros e histórias que desconheço, mas que faço questão de viver e aproveitar todas.

Isso pra te dizer, Marcelinho,

Marcelão,  que adorei os novos rumos que o novo mapa desenhou na minha vida. É um prazer estar aqui na minha nova terra e rever um rosto que me lembra de quando eu era uma criança.

E aqui estou eu, novamente livre e pronta.

Vamos brincar de que?

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teu dia

Te mostrei que o céu ontem comemorou teu aniversário.

Mas eu tenho certeza que, ainda que nem tivéssemos nos falado, você saberia o que sinto.
Assim como as palavras que escrevo tornam-se patéticas por nunca se aproximarem do que meus olhos vêem, do que minha alma sente.
Eu não sei o que escrever.
E não é fácil admitir.
Mas, pensando bem, uma coisa eu sei: Quero escrever pra todo mundo ler. Quero que muita gente conheça você.
E numa dessas tardes de limpeza, revirando livros, discos, miudezas, percebi o quanto você está presente em tudo, o quanto tua presença se faz perceptível silenciosamente aqui.
Escrevi numa folha em branco:

Luis Fernando: 1. Aurora boreal, mistura de natal com dia dos namorados. Às vezes tem a beleza incompreensível de uma montanha, outras a delicadeza de uma flor que acabara de se abrir. Parece mar, areia fina, por do sol carmim rosa alaranjado. 2. Conforto, abraço, abrigo. Amigo.
3. Pense na música mais bonita que já ouviu.
4. Pense no coração mais puro que já conheceu.
5. Ele significa isso.
6. Natureza. Aves, baleias, répteis, borboletas, tubarões, tartarugas, ursos polares, formigas, elefantes. Você está em tudo.
7. Estrelas, cometas, galáxias, universos. Tudo. Todas as coisas das quais fazemos parte e somos parte.

Sinônimos: Amor, gratidão, fé.

E eu posso te dizer sem pensar, mesmo tendo passado do horário: pra dizer exatamente quem você é não há uma só palavra em todo o dicionário.
Feliz Aniversário irmão,
Te amo.

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autor_kamila

Senta, se acomoda.

À vontade, tá em casa.

Toma um copo, dá um tempo.