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do que você precisa?

Quantas páginas são necessárias para aliviar o nó de uma garganta inflamada por palavras caladas e engolidas?

Quantas vezes é necessário calar para se fazer ouvir num silêncio que, de tão denso, faz mais barulho do que tudo que não foi dito?
Como perceber o infinito num mundo que transborda no raso, no fácil, no conveniente?
Seria diferente se conseguíssemos enxergar antes do fim, antes da luz, antes do depois. Mas não foi, nem sempre é possível fazer como se pensa, pensar como se faz, agir em concordância. Às vezes não sabemos como dizer, como se todas as palavras que colecionamos desde a infância perdessem o significado. Como se todos os vocábulos se tornassem insensatos diante do que queremos que outros saibam.

O mais importante é você.
Você sabe? Se baste.
Você disse? Se contente.
Você quer? Busque.
Mas o roteiro nem sempre condiz com a vida real, quase sempre esquecemos o texto e improvisamos numa cena derradeira, contando com a possibilidade de que a sorte nos olhe com cuidado e nos ceda um espaço. Nós dê confiança, nos mostre um caminho menos árduo, mais sereno.
Serenidade vem de dentro, e o mundo grita por todos os lados.
Como é bom depois de um dia longo repousar num abraço sem culpa, sem medo, sem explicação. Bom mesmo é ter razão de ser, motivo de acontecer.
E se não tiver, bom mesmo é inventar, criar, recriar.
Mais difícil que trocar, é consertar.
Mais bonito que sentir, é demonstrar.
Mais infinito que o silêncio que grita deve ser a vontade de se fazer ouvir sem precisar dizer.
Bonito, bonito mesmo é escolher todo dia você.
Olha, o céu está lindo lá fora…
Ele sempre está, e sempre nos mostra que, independente das cores, das dores, dos amores, existe um novo recomeçar.
Poderia ser ontem, mas pode ser já.

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autor_kamila

 

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elas dentro dela

Acontece que no tal passado, ela era infernal.

Um verdadeiro furacão, que arrastava tudo ao seu redor.

Era tão intensa que parecia que nunca media as consequências dos seus atos. Os batons de cor escura contornavam seus lábios. Carregava seu sorriso com balas de sarcasmo e ousadia. E quando disparava beijos, sempre arrastava uma risada malvada. Gostosa de escutar até quando não se ouvia a piada. Trocava olhares calculados, o que era uma tremenda sorte do acaso, que nunca teve o azar de ser metralhado pela forma como ela costuma sorrir com os olhos.

Olhava nos olhos.
Das vítimas e dos amigos.

Algumas vezes franzia a testa e os olhos e encaravam a alma. Aprendeu com outros sustos da vida, que ninguém mente o que sente. Pessoas transparentes são raras, mas sempre deixam seus sentimentos escaparem. Já tinha na ponta da língua todo o vocabulário necessário quando o silêncio resolvia aparecer pra conversar.  Com as pontas dos dedos, rasgava devagar toda a culpa que insistia em pairar em alguém, sempre em forma de carinho. Sabia lidar com a culpa como ninguém. Como se fosse dela. Abraçava pra aquecer, mas sempre disposta a esquentar.

Deixava os corpos aquecerem o bastante para clamar pelo frio. Bailava sobre as cobertas numa mistura de menina e mulher. Perdidamente certa de que não sabe como tem tamanha certeza de querer estar ali. Enrolava suas saudades e pudores enquanto arrancavam suas roupas. Encaixavam com tamanha perfeição que pareciam ensaiar. De todas as voltas que a nossa cabeça insiste em dar, a melhor delas é quando estamos mergulhados no agora. Sentia que estava no lugar exato. Segura e suada. Ele só dela. Ela mais dela do que nunca. Gozava do poder que tinha e da mágica que transpirava da própria pele.

Adormecia

E numa mistura de preguiça e sonolência, abre os olhos desejando voltar para seu último sonho. Ela sonha toda noite, mas pouco se lembra com o que sonhou. Enrosca o rosto no travesseiro, como se buscasse o final do seu sono dentro dele. Estala seus dedos e deixa seu corpo agradecer por mais um dia. Ora por proteção e esquenta o café. Reclama do passado que não tirou a maquiagem e agora exige o esforço do futuro para remover. Discutia. Principalmente com ela mesma. Era trágico e ao mesmo tempo cômico. Prendia os cabelos de uma maneira firme, para que não tivesse que destinar seus xingamentos aos fios que caiam sobre seu rosto. Num tom de voz mais baixo, conversava com a sua própria consciência, tentando reprimir um passado recentemente infantil. Sorria da própria desgraça. Das próprias frustrações.

Sorria, pois ficava linda sorrindo, independente do tempo.

Físico ou verbal.

Sorria, pois encontrava a maioria das respostas nos momentos em que era leve.

No ballet das mulheres dentro dela, tomava conta da própria casa conversando com a amiga de infância, no mesmo tom de voz do dia que se conheceram. Dava risada da história que não lembrava se já tinha escutado, mas dava uma opinião diferente do que a última vez. Pelo menos disso tinha certeza. Evitava elencar suas dúvidas, por acreditar que não ter todas as respostas da vida talvez seja ter um pouco de paz. Costuma adorar discutir sozinha. Fazia com certa frequência e sentia até um prazer nisso.

O problema é quando alguém de fora palpita.

Ai é outra história.

Mulherão.

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autor_jorge

 

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vizinhos de alma

Foi justamente naquele dia, que ela resolveu sair sem maquiagem, perfume e brincos. Coisa rara pra uma segunda feira. Ou se atrasava para a reunião corporativa, ou juntava tudo e terminava a produção no carro. Ao pegar o elevador, com as mãos ocupadas e cabelo molhado, recebeu aquela ajuda salvadora para segurar a porta para ela entrar.

Mas só quando chegavam próximo à garagem, resolveu olhar nos olhos de quem lhe fez a gentileza.

– Ah, eu não posso me atrasar, desculpe o mau jeito, bom dia!

Ele, reparando em cada movimento daquela mulher fascinante e tão natural, como não via há muito tempo, respondeu com aquela voz aveludada, que ainda saía rouca por causa do travesseiro:

– Imagine, pra mim foi um prazer esta surpresa, bom dia!

– Surpresa?

Ela ia continuando a conversa enquanto os dois procuravam seus carros, já no subsolo.

– Sim, adoro quando não sinto fortes perfumes logo de manhã e esta suavidade sua veio acompanhada de uma imagem inspiradora pra começar minha semana.

Depois de um suspiro tímido, ela continuou:

– Nunca vi você por aqui, é morador novo?

– Não, já moro há mais de um ano. Incrível mesmo nunca ter visto você, mas agora sei que tenho uma vizinha e quem sabe uma amiga… Assim, marcaram um treino de final de tarde, na academia do condomínio.

Se despediram apressados para a tarde que passou devagar.

Ele já estava na sauna, quando ela chegou, por isso não o viu logo de cara e foi, como de costume, dar um mergulho na piscina. Enquanto dava algumas braçadas, o vizinho de voz aveludada, sai com o corpo quente de tanto vapor e dá um mergulho de cabeça, na pequena mas profunda piscina.

Os dois se encontraram na superfície ao mesmo tempo e se olharam, muito. A impressão que tiveram foi instantânea e recíproca, vontade de não sair mais de um demorado abraço que não aconteceu, pelo menos não ali.

Enquanto deixavam de lado os aparelhos e espelhos, sentaram-se na varanda do mezanino e admiravam o mar ao longe. Conversaram sobre tudo, por muitas horas seguidas, quando veio a fome e a sede.

Ainda molhados, subiram juntos  para o jantar combinado, só que agora, depois de conhecerem suas histórias, desejos e sonhos, já não dava mais para manter distância, se juntaram num delicado e ardente abraço, que durou até o vigésimo terceiro andar, onde era o apartamento dele, ela morava no andar que viria depois.

– Daqui a meia hora, ele perguntou quase afirmando e não querendo largá-la.

– Sim, ela consentiu com a cabeça.

Aquela seria a segunda feira mais sensacional que os dois já viveram, não fosse o dia seguinte e os próximos, que eles continuam vivendo.

Até hoje

Juntos.

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nossas malas

Existem despedidas dessa vida, que a gente não faz.

São tão rápidas e cruéis que mal podemos acompanhar seus movimentos.

Malditos ninjas do adeus.

Deixam um gostinho de até logo, mas custamos em acreditar. Fechamos a cara com um bico, a alma por proteção e soltamos um sorriso amarelado pra agradar. Um adeus mal dado. Não maldoso. Conversamos baixinho com o silêncio que alguém deixou. Suspiramos buscando palavras, mas não encontramos nem ar. Borrifamos os nossos carinhos ao vento, orando pra que sejam carregados até o lugar em que não podemos estar.

Adoramos negociar no escuro com o futuro, que covardemente ressuscita o passado só pra nos maltratar. Enchem nosso agora de saudades, pra ver se aprendemos como carregar. Saudade, nada mais é, do que a vida sendo sádica explicando pra gente que nem todos os nossos amores, a gente consegue levar pra passear. Parece que a nossa mala é sempre pequena pro tanto de coisa boa que a gente quer guardar. Por isso, recusamos a ajuda pra arrumar nossas malas. Esquecemos propositalmente nossos pedaços na esperança que alguém possa nos montar.

Prometemos a nós mesmos sermos melhores na próxima arrumação. Mais carinho na hora de arrumar a próxima mala, e assim, talvez caiba espaço para alguma lição. Apertamos o nome de alguém junto com um lugar legal. Embolando uma história fantástica e amassando uma risada gostosa, teremos espaço para dobrar nossos devaneios junto com nosso pouco juízo. Cuidado. Não aperta muito pra não quebrar nada, fecha essa tua mala de memórias e carrega com você por toda a vida.

Tem partida que machuca, pois a gente sabe que vai demorar pra abraçar outra vez. A gente conta pra quem não deve todas as coisas que a gente não pode. Só pra ver se quem nem foi, fica. A gente tem orgulho do sangue ser quente, mas tem vergonha de pedir pro outro ficar. Só aprendemos com muito barulho o tamanho da importância de um silêncio.

Rodamos o mundo buscando os caminhos que sempre estiveram dentro da gente. Tem muito adeus curto, confuso. A gente diz que tá chegando sem saber pra onde tá indo. Junta tudo o que falam da gente e vestimos uma máscara que nem é nossa. Amassa tudo e mastiga junto com o orgulho, antes de engolir. No começo sempre cansa. Com os conselhos sinceros fazemos nossos melhores escudos. Confiamos e continuamos andando. Andamos muito. Aprendemos mais um tanto.

Alguns medos desistem no meio do caminho, principalmente quando os encantos da vida tem espaço para trabalhar em paz.

Então antes de ir embora, por gentileza, deixe a maioria dos seus pedaços pra que alguém possa te remontar.

Te procurar.

Encontrar.

Inspirar.

E ficar.

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autor_jorge

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vamos brincar de que?

Pela estrada de terra ela vinha com suas botas de montaria.
Percebia extasiada os aromas e cores da paisagem que aquela antiga fazenda refletia. Aquelas terras foram recebidas em circunstâncias maravilhosamente estranhas.

Quando passeava, numas das várias vezes, pelo imenso e belo parque, próximo à sua casa, preocupada naquela tarde, com os rumos que sua vida haveria de tomar, após a grande revelação do marido, que iria se separar porque não a amava mais.

pensou; se os planos de vida a dois acabaram, preciso pensar no solo que farei daqui pra frente. Sei que sou forte o bastante para me lembrar de quem eu sou, sei que tudo que vivi até hoje foi verdade, sei que fui feliz até agora com ele e que também me descobrirei diferente e que esse diferente vai ser muito bom. Mas não sabia nem como, nem por onde começar.

Voltou pra casa, com os olhos marejados ainda, depois de tantos dias de confusão de sentimentos, abriu uma correspondência que seu porteiro entregou. O documento oficial, com timbre, carimbo e selos que dizia: Sra Clarisse Lisboa (nome de solteira) Com a autoridade a mim concedida pelo Sr Gilberto Stern, venho informar sobre seu falecimento e cumprir seu testamento. Cabe à senhora uma grande porcentagem de seus bens. Aguardamos sua presença em nosso escritório o mais breve possível, para os trâmites burocráticos da realização completa das determinações de nosso estimado cliente.

Não conseguia respirar direito, suas mãos suavam, passou um filme futurista em seus pensamentos. Um futuro que agora era real. Estava pisando em suas novas terras, deixada por um tio (por afinidade) distante, que não teve filhos ou esposa e que a amava muito enquanto era criança e passava férias na cidade do melhor amigo de seu pai. O que ela não sabia é que o maravilhoso presente não acabara ai.

À noite, frio, muito frio, céu estrelado, cheiro de frutas, som das folhas no vento suave e uma fogueira que ela começava a alimentar com os gravetos que encontrava naquela clareira, banhada pelo som do riacho e da mais redonda e linda lua que já tinha visto, escutou passos estalando as folhas.

Ficou assustada, mas não com medo, era uma presença boa e forte. O rosto dele lhe parecia familiar, sorriso amigável e olhar tranquilo disse sorrindo:

– Nem nos meus melhores sonhos, poderia imaginar que você fosse ficar tão linda.

– Você me conhece?

– Sim, desde pequena, aquela menina que corria muito pelos campos e montava cavalos como ninguém.

– Você é o Marcelinho?

Ria como quem entende uma piada engraçada.

– Que bom que lembra de mim e isso te fez rir assim.

– O que você faz aqui?

– Eu era o administrador da fazenda do Gilberto, essa que vemos do outro lado desse rio. Eu moro aqui.

– Como a vida brinca com a gente, é só deixar que ela te mostre, é só perceber o desenho que ela vai aos poucos construindo. Eu escolhi, num momento de dor, ficar desperta para o que viria pela frente. Entendi que quando a gente vive com verdade e com a transparência, nossas escolhas caminham a nosso favor, em nosso benefício.

Ainda que minha vida, ricamente programada não tenha sido o que eu planejei, ainda assim escolhi acreditar que existam planos que eu não alcanço, que existem encontros e histórias que desconheço, mas que faço questão de viver e aproveitar todas.

Isso pra te dizer, Marcelinho,

Marcelão,  que adorei os novos rumos que o novo mapa desenhou na minha vida. É um prazer estar aqui na minha nova terra e rever um rosto que me lembra de quando eu era uma criança.

E aqui estou eu, novamente livre e pronta.

Vamos brincar de que?

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teu dia

Te mostrei que o céu ontem comemorou teu aniversário.

Mas eu tenho certeza que, ainda que nem tivéssemos nos falado, você saberia o que sinto.
Assim como as palavras que escrevo tornam-se patéticas por nunca se aproximarem do que meus olhos vêem, do que minha alma sente.
Eu não sei o que escrever.
E não é fácil admitir.
Mas, pensando bem, uma coisa eu sei: Quero escrever pra todo mundo ler. Quero que muita gente conheça você.
E numa dessas tardes de limpeza, revirando livros, discos, miudezas, percebi o quanto você está presente em tudo, o quanto tua presença se faz perceptível silenciosamente aqui.
Escrevi numa folha em branco:

Luis Fernando: 1. Aurora boreal, mistura de natal com dia dos namorados. Às vezes tem a beleza incompreensível de uma montanha, outras a delicadeza de uma flor que acabara de se abrir. Parece mar, areia fina, por do sol carmim rosa alaranjado. 2. Conforto, abraço, abrigo. Amigo.
3. Pense na música mais bonita que já ouviu.
4. Pense no coração mais puro que já conheceu.
5. Ele significa isso.
6. Natureza. Aves, baleias, répteis, borboletas, tubarões, tartarugas, ursos polares, formigas, elefantes. Você está em tudo.
7. Estrelas, cometas, galáxias, universos. Tudo. Todas as coisas das quais fazemos parte e somos parte.

Sinônimos: Amor, gratidão, fé.

E eu posso te dizer sem pensar, mesmo tendo passado do horário: pra dizer exatamente quem você é não há uma só palavra em todo o dicionário.
Feliz Aniversário irmão,
Te amo.

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autor_kamila

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fossa faminta

Eu adoro comer, independentemente da tragédia que precede a fome.

Então quando você me diz que hoje quer sorvete e muito chocolate, eu realmente ficarei feliz.

Preocupado, é verdade. Mas feliz.

Chego ao teu encontro feliz da vida, mesmo sabendo que alegria é tudo que você não quer. Abro um sorriso e levanto a guarda enquanto você abre a porta. Perdoa o meu deboche, joga a culpa no meu sarcasmo. Eu não entendo porra nenhuma de signo, então pode falar mal do meu o quanto quiser. Eu realmente não vou me importar. Como você é bicuda, vou ter que esperar você escolher o gênero do filme pra entender se hoje você está sentindo raiva ou saudade. Somos eu e você contra o mundo. Como sempre foi.

Teus dedos passeiam sem vontade pelo controle da televisão. As opções brincam entre um romance e um drama. Pergunto se você quer que eu faça uma pipoca antes de começarmos, mas você não responde. Volto a perguntar e então, ouço teu soluço baixinho. Meu coração esfarela. Arranco a almofada do seu braço pra te cobrir num abraço. Deixamos o silêncio de trilha sonora por alguns instantes. Afinal, sabemos que as piores histórias ainda são aquelas que nem sabemos como começamos a contar.

Acaricio seus cabelo e suas feridas.

Deixo que sua coragem ganhe forças graças a tua raiva. Paciência. Você me conta o que aconteceu. Começa como um desabafo e depois quase vira uma bronca, mesmo eu não tendo culpa. Sua voz enfraquece e seus olhos param de me encarar. Seu tom de voz agora é mais tranquilo, como de uma criança que sabe o motivo de ter perdido o brinquedo. Mas ainda não queria parar de brincar. Aproveito a calmaria para perguntar se você ainda se recorda da minha opinião sobre aquela confusão. Escuto que essa parte que mais te irrita, aquela onde eu mesmo não fazendo parte da história, tento ter alguma parte de razão. Arranco um sorriso da sua cara inchada e então seguro a tua mão.

Calma, só foi mais uma paixão que se foi.

Agora eu vou te ajudar a carregar o que você precisar, independente de quanto isso me pesar. Vou ajudar teu sorriso a ficar. Nem tudo que chega ao fim deu errado. Normalmente erramos em como lidar com esse peso do fim da melhor maneira possível, mesmo ele nos ensinando tanto. Ou doendo tanto. Essa cegueira momentânea bagunça a cabeça da gente, da maneira mais cruel que do mundo conhece: odiando quem a gente tanto amou.

Portanto, menina, tudo que eu lhe peço é paciência nessa tempestade. Por mais que ela molhe agora, sabemos que em breve  vai passar. Deixa tuas sementes germinarem do lado de lá e poda tudo que te consumir por aqui. Desata teus nós e quebra tuas correntes. Aproveita essa ventania que vem louca pra te contornar. Desprende do teu cais e deixa o resto do mundo conhecer esse teu jeito, apaixonante e brincalhona. Espalha esse teu conhecimento por onde você passar e colha os encantos com carinho.

Independente da classificação ou gênero do seu próximo filme,

Eu assistirei a sua felicidade com ela se fosse minha.

Pois amigos são pra essas coisas.

Ou para esses filmes.

Vamos comer?
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autor_jorge

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ser inteira

O melhor de ser inteiro é poder se dar de presente para alguém e, não sendo cuidado como merecido, não se sentir vazio.
o bom da “inteireza” é a sua impossível morte.
Você passa uma parte significativa da vida removendo cacos de vidros dos pés até que, como num passe de mágica, começa a apreciar o vermelho gritante do seu sangue, passa a enxergar uma beleza escondida no desenho das suas cicatrizes, inicia um processo de evolução espiritual desconhecida.
Eu não sei, mas eu me dou de presente.
Só não me dou, talvez, de forma clara para todos.
Alguns, percebem logo.
Outros, nunca irão perceber.
Eu não me importo. Deixo parte de mim em cada um e não reduzo.
Não diminuo.
Continuo grande, mantenho minha imensidão em constante expansão.
O amor se dá é não se perde.
Se dobra.
Desdobra.
E não morre.
O melhor de ser inteiro é poder olhar pra trás, mais pra frente, e enxergar sem dúvidas, visivelmente, que deixou amor em tudo. Que se deu sem cobrar.
Que partiu sem pagar.
Que entendeu que, o melhor da vida, é amar.
Incansavelmente.

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gratidão esfarrapada

Meu amor, não é que eu tenha cansado.

E se pra você isso for um tipo de vitória, deixo aqui minha pena de ti.

Parece que você já veio com um alguns tópicos para serem preenchidos quando fui deixando nossa conversa fluir. Nunca me importei em satisfazer desejos alheios, principalmente de pessoas que nunca fizeram parte da minha vida. Respondi com firmeza suas dúvidas inseguras. Não acreditei que meu trabalho pudesse te assustar. Você arregalou os olhos quando soube o tamanho real das minhas responsabilidades. Gaguejei achando que era por orgulho. Infelizmente era por medo. Desculpas aceitas para sua falta de tato com uma mulher moderna.

Sua maior insegurança realmente era seu ego. Aonde eu buscava uma soma, você planejou uma divisão. Naquele que era pra ser o mais bonito trabalho em grupo construímos uma corrida desigual. E então você errou outra vez. Errou quando duvidou das minhas amizades. Numa mescla de arrogância com prepotência acompanhei a criação do seu gráfico mental de companheirismo. Frequentamos os mesmos estádios por atrações diferentes. Você pelo clube do coração. Eu pela apresentação do guitarrista que tocava na banda que seu pai ouvia. Que você deveria ouvir também, aliás. Beatles podem mudar sua vida. Desculpas aceitas pelo rótulo infantil que você prega para as escolhas diferentes da sua.

Cavou dentro do meu peito um buraco tão raso que mal podia mergulhar. Me achou antiquada quando disse que ali não era lugar. Mas ficou imóvel e gelado, quando descobriu o tamanho da minha chama em quatro paredes. Quer impor domínio mas não sabe se portar quando dominado. Desculpas aceitas para sua insegurança com luzes, por tentar ofuscar o meu brilho e pouco inflamar meu fogo.

Comprei o pacote mais bonito de problemas que encontrei, que era com seu nome. Você queria que eu fosse um momento, eu queria esvaziar a cabeça. Você buscando em mim histórias pros outros, eu buscando esquecer os outros ouvindo as suas histórias. Seu desejo de futuro flertou com a minha agonia do passado. Nosso agora foi um belíssimo encontro de direções opostas. Desculpas aceitas para esse nosso abraço em movimento em uma ladeira.

Mas de onde eu venho, as coisa não funcionam dessa forma.

Acredito que perdas nos ensinam muito mais do que conseguimos absorver. Aprendo com erros do passado em situações que ainda nem vivi. Comemoro minhas vitórias em respeito com todos os dias em que já sofri. Me calar nunca foi uma opção que eu desejei seguir.

Então perdoe minha falta de tempo com esse carinho confuso e covarde, que você diz guardar dentro de ti.

De esfarrapadas, já me bastam as suas desculpas, os amores eu prefiro não ouvir.

Querido, excepcionalmente hoje eu não estou disposta a parar de sorrir.

Grata.

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o tal do final

Era uma vez, o fim de uma história.

Ele já tinha percebido que seu sorriso não estava tão sincero e que suas respostas eram monossilábicas. A vontade era de não saber se estava acontecendo exatamente aquilo de que ele mais tinha medo.

Mas, naquela noite ele resolveu que queria a verdade, nada mais faria sentido se não o que realmente estava acontecendo. Para o seu desespero ela estava mais linda do que nunca, ao entrar no carro dele. Ele estacionou novamente em frente ao mar, como da primeira vez que se beijaram e ali ficou em silêncio, olhando as grandes ondas que traziam a trilha sonora daquele momento cruel. Segurou a mão dela com sua mão, suada e quente. Colocou suavemente em seu coração e disse:

– Sei que alguma coisa mudou entre nós, sei que não estou confortável, sei que você é a mulher que eu sonhei e não sei o que está tentando me dizer. Mas por favor, diga.

Ela olhou para o fundo dos seus olhos, sentindo as batidas acelerando no peito e finalmente, após um longo e infinito suspiro, falou baixinho:

– Mudou sim, eu sabia que você tinha percebido, eu só não sei como dizer, mas agora, ouvindo sua pergunta, acho que estamos prontos: Meu amor, nestes muitos meses que estamos juntos, deixei muitas vezes de dizer muitas coisas que eu queria, por medo de não ser compreendida, ou mal interpretada, mas resolvi que a partir de hoje, vou deixar o medo de lado e vou lhe dizer que ando preocupada e desconfiada que minha vida, depois que você me encontrou, está muito mudada, colorida, leve e divertida.

Ele suspirou aliviado, seus olhos marejados confundiam esperança com uma alegria radiante.
Ela então prosseguiu:

– Com toda a certeza, sim, sim, é você que eu quero ver quando for dormir e quando acordar para um dia novo. E se um dia você me disser que não me ama mais, ou eu descobrir isso, vou me lembrar pra sempre que tudo isto, toda esta beleza e riqueza que aqui está, permanecerá pra sempre na história de nós dois.

Então, que seja este um novo início, as primeiras palavras da nossa nova história.

Era uma vez, um namoro cheio de incertezas, que se acabaram no dia em que eles resolveram não ter mais medo de amar.

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Senta, se acomoda.

À vontade, tá em casa.

Toma um copo, dá um tempo.